Há um tempo atrás eu que sempre curti assistir tvs públicas assistia na TVE (atual TVBrasil) o seguinte comercial: "Onde você guarda o seu racismo?"
Pergunta muito instigante. Principalmente para um povo que insiste em afirmar que não tem preconceitos. Afinal, como até mesmo FHC afirmou "todo mundo tem um pé na senzala".
Quando houve a reformulação e regulamentação da profissão de doméstica comemorei dizendo que por fim acabamos com o serviço de "mucamas" e agora teríamos trabalhadores livres que receberiam justamente pelo trabalho e não seriam mais "escravos" de seus patrões, já que muita jovem pobre (algumas até nordestinas) serviram de piada de muito mau-gosto sobre a servidão doméstica.
Que susto não levei quando li que certa pessoa comparou a aparência dos médicos cubanos com as empregadas domésticas. Sinceramente, a afirmação mais desproporcional que já li na minha vida (e olha que ela no post pediu desculpas).
Sim. Aqui no Brasil temos o costume de pedir desculpas por cometer atrocidades: desculpe se é sexismo, mas homossexualismo é aberração; desculpe se é preconceito mas mulher que vai à baile e é estrupada é culpada; desculpe se é exagero, mas favelado e bandido são a mesma coisa... e por aí vai os pedidos estaparfúdios de desculpas que só tem uma coisa em comum: expõem ao sol nosso racismo incubado e muito bem alimentado.
Sim. Nosso racismo é muito bem disfarçado em falsa meritocracia. Afinal, quem quer ser alguém tem que ralar muito! Cotas são uma injustiça com quem tem que estudar muito e gastar dinheiro com cursinhos...etc.
Pois bem: lembram da polêmica das cotas? Me lembro de um texto de Rubem Alves relatando que quando o curso de Medicina da USP resolveu aceitar cotistas negros tiveram um assombro: estes eram mais prestimossos e dedicados à pesquisa acadêmica e ao exercício médico. Tal constatação resultou numa carta aberta defendendo a permanência da política de cotas justificando sua pertinência.
Pois bem. O Revalida, não vale só para médicos cubanos, serve também para portugueses, alemães, indonésios, chineses, etc... Agora a leva é cubana. Uma turma de médicos proeficientes em medicina tropical. Por um acaso somos um país tropical e nossas doenças são características de um país tropical. Então, por que também estardalhaço?
Antes eu considerava as reivindicações da classe muito pertinentes: de fato faltam condições de trabalho em muitos hospitais públicos espalhados pelo país, principalmente nas capitais, mas ao que parece a capacidade de articulação da categoria é muito precária, pois passaram anos sem reclamar nada.
Tudo ia muito bem até que me deparo com declarações de médicos dizendo que não iriam a regiões do país no Norte ou Centro-Oeste ou mesmo no Nordeste, preferindo ficar nas capitais por pura comodidade. O que Josué de Castro diria sobre isso?
O que acontece é que o juramento de Hipócrates foi jogado no lixo, ou não tem nem sequer valor formal em nosso país, de forma que nossos médicos (brancos caucasianos "com um pé na senzala") se dão ao direito de vaiar colegas de trabalho cubanos tratando-os como "escravos" e fazendo insinuações altamente racistas, que tiram o Movimento Negro do país do seu estado de plenitude!
Todo mundo sabe a luta que tem sido travada para acabar com os últimos bastiões do colonialismo-escravocrata brasileiro: o combate ao coronelismo, a universalização ao acesso à educação, a universalização ao acesso e financiamento à cultura e ao folclore brasileiro, a regulamentação de profissões que utilizam mão de obra barata (empregadas domésticas, cortadores de cana, extrativistas, etc), agora vemos que nas profissões também temos o racismo: "afinal médico tem ter cara de médico"....
Qual é a cara do médico? Aquela cara de nojo, que faz perguntas secas e nem espera que você termine a resposta? Aquela cara de indiferença quando você fala da suas enfermidade (depois de ter suportado as mais diferentes humilhações para ser atendido(a)? Aquela cara de "próximo" quando você mal termina de falar e ele lhe dá uma receita e a prescrição pouco se lixando para o processo de recuperação? Afinal: qual é a cara do médico?
Vou admitir: detesto médicos. Se preciso de um prefiro um terapeuta alternativo, um fisioterapeuta, qualquer coisa, até curandeiro, menos médicos! Para mim são criaturas insuportáveis! Salvo algumas exceções que merecem todo o meu respeito e apoio civil, muitos são insuportáveis, preconceituosos e intolerantes. Para quê ser médico então? Poderiam ganhar suas vidas com outra atividade mais rentável, se o negócio e dinheiroi e status social.
Não estou dizendo que ser médico nas capitais brasileiras (e mesmo no interior) seja a oitava maravilha do mundo, mas acho no mínimo estranho uma categoria com tamanho status permitir que seus profissionais operem na mais perfeita precariedade no serviço público. E ao que parece no serviço particular a coisa não é melhor....
Há algum tempo ouço amigos médicos ou professores de Medicina comentarem que faltam Clínicos Gerais, já que a onda é a Especialização (que paga melhor). Então me pergunto: que acinte foi este em agredir de forma racista médicos cubanos, quando a atitude mais racional seria elevar cartazes dizendo: "Vocês não terão condições de trabalho", ou "Estão prontos para receberem doentes à beira da morte e não poderem fazer nada?", ou "O que vocês farão se uma facção criminosa invadir um hospital para resgatar um criminoso internado?", ou "O que vocês farão se a polícia jogar gás lacrimogêneo dentro do hospital para capturar manifestantes?", ou "Como se opera sem instrumentos ou macas?", etc.... Isso sim traz impacto!
O episódio dos médicos cubanos só traz à tona um problema que explica em parte tanta corrupção e o descaso com a Saúde Pública: ninguém gosta de quem tem cara de faxineira ou faxineiro! Subalternos não merecem atenção básica na saúde. Não precisam. Talvez a crença geral de alguns "médicos" formados no Brasil seja de quê: negros, faxineiras, faxineiros, nordestinos e favelados morram para que não incomodem mais o serviço público de saúde com suas doenças de Terceiro Mundo...
O problema central é que nossa elite ainda não se tocou que já estamos trabalhando para deixarmos de ser Terceiro Mundo... mas se tiverem saudades dos velhos tempos já sabem o que fazer nas próximas eleições...
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