Barulhos da semana

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

João Gilberto: lar doce, lar

Ora veja: o mais brilhante dos músicos brasileiros, citado por Gilberto Gil como um de suas influências musicais fundamentais (juntamente com Caetano, é claro) está sendo despejado de sua casa, por esta ter sido alugada de uma condessa, esta não deseja mais ter o ilustre inquilino em seus domínios. Resultado: João Gilberto terá de deixar seu lar.

Claro, qualquer pessoa de bom senso diria: ora por que eles não fazem um acordo e o cantor adquire definitivamente o imóvel, afinal dinheiro não lhe falta com o sucesso que suas músicas vem fazendo mundo afora? Ou ainda: por que ele simplesmente não muda de apartamento e ponto?

A imprensa tentou lhe fazer estas perguntas, mas o cantor recolheu-se de forma que a publicidade de seu problema não terá sua participação espontânea, cabendo a Justiça, tratar do assunto segundo os meios que possui.

O fato é que uma juíza já despachou a favor da locadora do imóvel, que mora na Itália e vem esporadicamente ao Brasil.

Quem tem casa e se afeiçoa a seu lar, deve estar mais sensível ao lado do artista que em tanto tempo só queria ter um cantinho aconchegante no Leblon e ponto! Disso podemos supor pelo fato de ele pagar 8 mil reais mensais pelo dito imóvel para ficar contemplando a vista ou apenas se sentir seguro e tranquilo ao lado das paisagens das novelas do Manoel Carlos.

Porém, longe de qualquer preocupação como aquela que estão vivendo aqueles que perderam suas casas na devastadora ação da natureza que alterou a geografia serrana, nosso artista não está simplesmente perdendo um lar por "risco de desabamento" ou devido a transtornos naturais que afetem seu bem-estar ou sua vida. Nada disso! A condessa só quer seu apartamento de volta e ponto! O que ela vai fazer dele, não interessa ao compositor. Talvez ele sinta-se como aqueles despejados da prefeitura, que só querem morar em um lugar no Centro ou próximo a áreas valorizadas e, portanto, ocupam prédios abandonados, transformando-os em moradia;

Mas João Gilberto pagava aluguel, impostos (pelo menos o IPTU), o imóvel era regularizado, não tinha "gato" a ao que parece, ele não dava festas de arromba com sua bossa-nova de forma a incomodar a vizinhaça e desvalorizar o meio-ambiente do condomínio.

Afinal, por que então a condessa (e eu nem sabia que isso ainda existia no Brasil) que vive na Itália, faz nosso compositor maior passar por tamanha humilhação? Ela não faz jus a boa tradição aristocrática italiana famosa por seus mecenas: por que não doar o imóvel ao artista como premiação ao mérito de sua obra e de sua contribuição a Arte mundial; ao invés de expô-lo ao ridículo nos folhetins diários?

A despeito dessa "fogueira das vaidades" penso na situação nos moradores da região serrana despejados de suas casas em nome de sua segurança, os sem-teto despejados de suas ocupações em nome da ordem pública, dos moradores de comunidades ainda comadadas pelo tráfico expulsas de sua casa em nome da vontade do traficante, dos moradores pobres de regiões ribeirinhas expulsas de suas casas em nome do progresso, dos quilombolas expulsos de seus assentamentos em nome da lei, dos índios expulsos de suas reservas em nome do Mercado, dos sem-terra expulsos de seus assentamentos em nome da proteção ao direito da propriedade privada,... e por aí vai.

Acho que João Gilberto, não vai conseguir dormir com um barulho desses...

Veja a notícia em: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2011/02/condessa-entra-com-processo-para-despejar-cantor-joao-gilberto-no-rio.html

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O barulho que emudeceu o plenário

Lembro de Cidinha Campos do tempo de seu programa no rádio onde discutia política entre seus desmandos e formas de resistência ao fantasma da pós-ditadura que assombrava a recém reeditada democracia.

No programa de rádio, contava casos de pessoas que sofriam com o descaso, comentava notícias importantes, sua voz - incomparável - era ouvida por milhares de pessoas todos os dias pelas ondas da Tupi AM. Aquela mulher que trabalhou para a Record cobrindo o Festival da Música Popular Brasileira (vide "Uma Noite em 67") sempre foi conhecida por seu ativismo político e sua coragem. Atém hoje me lembro com clareza quando fazendo suas denúncias de praxe contra a corrupção lasciva que já corroía a política tanto carioca quanto brasileira, comentou tristemente que sofria sérias perseguições que incluíram a morte de sua cadelinha de estimação como forma de aviso: se continuasse a falar, sua família estaria a perigo.

Foi vereadora e deputada estadual pelo PDT, e até hoje é uma ativista política do Estado do Rio de Janeiro. Teve idas e vindas na atividade política oficial, posto que era demais para seus nervos o que presenciava tanto na Assembléia quanto na Câmara. O Rio de Janeiro é sua paixão e a ética, a justiça e a moralidade política são suas bandeiras, desde a primeira candidatura.

Um vídeo postado pelos internautas das redes sociais mostra a lucidez e a força que esta mulher ainda tem, a sua capacidade de indignação profunda diante do cinismo de nossos políticos que a única coisa que parecem fazer é rir de nós e da ingenuidade matuta de quem dá seu voto para que eles façam da Câmara e da Assembléia um verdadeiro covil onde se negociam descaradamente repasses improbos do dinheiro público.

A força com que esbraveja contra a candidatura de um político improbo ao Tribunal de Contas do Estado. No início de seu discurso, o sarcasmo da plenária no primeiro momento mostra o cinismo com que é tratada a coisa pública em nosso querido Estado do Rio de Janeiro. Logo o sorriso sarcástico e indolente da plenária se transforma em consternação e constrangimento, pois se sabe bem do que se trata o discurso da deputada indignada.

Esbraveja, esbraveja com toda a força que a indignação e o inconformismo profundo com o que se passa a olhos vistos é capaz de produzir num coração apaixonado pela cidade e pelo seu povo. Seu discurso é estremecedor e estarrecedor por toda a verdade que encerra: uma verdade que é estampada todos os dias nos jornais e revistas em cores, mas que parece não desenvolver a mesma força, seja no populacho, seja na classe intelectual capaz de intervir na classe política.

Os políticos cariocas e fluminenses roubam! - é a sintese de uma parte de seu discurso. Roubam e não se envergonham e ainda por cima contam com o apoio de seus pares que parecem apoiar tais atitudes. Mas Cidinha Campos faz barulho, faz um barulho estremecedor! Capaz de abalar quem quer que esteja escutando.

Cidinha é um barulhenta, uma corajosa barulhenta, uma mulher sem comparação que merece todo o nosso apoio e o nosso barulho.

Parabéns Cidinha Campos!

E a quem lê: quero ver dormir com um barulho desses!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Apertem os cintos: o dinheiro sumiu!

Pois é, depois da Segunda Guerra Mundial o mundo civilizado passou por várias recessões, altos e baixos, planos de metas de crescimento e expansão de capitais e mercados; nos anos de 1990 quando isso se tornou realidade ganhou o nome de "Globalização". Legal né, um sujeito de uma tribo senegaleza ou um camponês do interior da China poder comprar Coca-cola e um hambúrguer do McDonald.

Pois então, antigamente existiam os tais países subdesenvolvidos e valia tudo para "acabar" o subdesenvolvimento - instalavam-se ditaduras, criavam-se grandes grupos internacionais de fomento aos necessitados, surgiam guerras/guerrilhas, apareciam fundações internacionais e milionários dispostos a doarem polpudas cifras para os famintos do chamado 3o Mundo.

Então a gente tinha aquela vidinha: pobres e ricos, classe dominante e proletários, 1o Mundo e 3o Mundo (sempre quis saber quem era o 2o Mundo...), haviam os socialistas e os capitalistas. Hoje não! É uma baderna: tem ditadura democrática, todos dos países pobres são emergentes, os países ricos não são tão mais ricos assim e a Europa agora é um bloco econômico em que só fica quem tem dinheiro, quem não tem,... fora! Acabaram os socialistas e os comunistas, agora o problema são os mulçumanos contra o "Mundo Livre" (na Idade Média seria no mínimo mulçumanos/mouros vs cristãos..., mas deixa para lá faz muitooo tempo).

Os capitalistas continuam capitalistas (eu acho) só que resolveram adotar algumas coisas dos antigos estados socialistas como: ajuda estatal a bancos e empreendimentos, controle dos meios de comunicação e produção da cultura; por outro lado passam a tesoura nos benefícios "públicos" como: aposentadorias, salários de servidores, salário de trabalhadores, fazem longas listas de "malefícios" à Economia com projetos ou planos governamentais que distribuam riquezas ou como preferem dizer: "inibam a iniciativa privada gerando dependência das camadas populares por meio de políticas assistencialistas".

Então, o dinheiro acabou. Apesar de tudo o que produzimos no mundo, a Economia não anda nada "econômica". Os gregos dizam que "economia" era a competência com que tratávamos de nossa "casa" dispondo os meios da melhor e mais harmônica forma possível. Produzimos muito (vide os números do lixômetro das praias cariocas ou os índices do Greenpeace), mas dinheiro, bufunfa, grana, não tem mais. E ninguém sabe explicar aonde foi parar os multitrilhões que os povos do planeta produziram no último século desde o surgimento do tal "Capitalismo".

Mas acho que o que está tirando o sono e a paciência das pessoas nas ruas não é a falta do dinheiro apenas, é a falta de um outro monte de coisas que resultou na falta de dinheiro ou da não-distribuição dele de forma que todo mundo pudesse ter uma casa, comida na mesa e coisas para passar o tempo, pois comer e arrumar a casa todo o dia ninguém aguenta, (pergunte a qualquer dona de casa)!

O dinheiro sumiu ou na verdade já adquirimos tudo o que podíamos adquirir com dinheiro e esquecemos daquelas coisas que, como diz o comercial do Mastecard "não tem preço".

Moral, ética, liberdade, disciplina, solidariedade, amor, fraternidade, compreensão, tolerância, objetivos; estas coisas não se adquirem com dinheiro. Não me perguntem como se adquire pois isso também é complicado explicar. Dinheiro você consegue trabalhando, tomando emprestado ou até roubando, mas gratidão e solidariedade só se consegue de boa vontade.

A barulheira do mundo agora não é por dinheiro, apenas, é por um mundo diferente. Apertar os cintos é o menor dos problemas.

E durma-se com um barulho desses.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A mangueira não conseguiu salvar a LIESA

Vocês conhecem aquela piada do "agora vai entrar a mangueira"? O Glauco já usou esta piada numa tira, o pessoal dos bares adoram sacanear os mangueirenses com essa piadinha, mas acontece que a Grande Rio, a Portela e a União da Ilha não "viram a mangueira' (dos bombeiros) entrar.

O Carnaval este ano vai ser mais triste e mais estranho, pois se ninguém vai cair e vai mudar a ordem do desfile isso acaba mexendo com o planejamento e o coração de muita gente. Mas acho que o grande problema não é a escola cair e sim levantar o moral destas escolas que no mínimo já estavam com o trabalho quase pronto.

Mas pelo menos, o incêndio não aconteceu nas portas da Avenida como em outros Carnavais matando inclusive alguns destaques, com muitas alterações, as escolas vão precisar de fôlego e muita comunidade para fazerem jus ao desfile na Marquês de Sapucaí.

Mas a pergunta que não que calar é: qual foi o motivo do incêndio e por que o sistema anti-incêndio da Cidade do Samba não conseguiu salvar o prédio que acabou desmoronando? Há de que pensar que uma vez que aquele local que foi projetado para aquele tipo de trabalho estivesse em condições de garantir a segurança dos trabalhadores.

Já viu um carro alegórico de perto? Aquilo é alegria de piromaníco! Não há nada que não que seja inflamável ali (a não ser as ferragens). E os bombeiros tiveram muita dificuldade em controlar o incêndio para evitar inclusive que ele se alastrasse para os outros prédios do local aumentando mais ainda o estrago.

Isso me faz pensar nas pequenas escolas que sem condições de segurança trabalham arduamente em busca do sonho de um dia desfilar na Sapucaí entre as grandes campeãs: imagina o que seria de uma escola que enfrentasse sozinha um barra dessa, um incêndio em seu barracão? Há muitas escolas no Rio de Janeiro e pouco investimento para todas, se não tem dinheiro suficiente para financiar o desfile, imagina garantir a segurança...

Dorme com um barulho desses...