Barulhos da semana

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

"Se o bonde parar ele sai dos trilhos da história"


A frase título desse artigo está escrita num quadrinho velho lá na estação dos Bondes de Santa Teresa, uma estaçãozinha discreta escondida entre os imponentes prédios da Petrobrás (na Av. Chile) e Banco do Brasil (na Senador Dantas).

Até onde sei e isso me foi confirmado na vida real, os (agora famosos) bondinhos de Santa Teresa só persistiram no tempo devido a dedicação dos condutores e pressão da comunidade de Santa Teresa. O bonde não era um luxo! Era uma necessidade! Era o único meio de transporte público que atendia aos moradores da região, precário ou não, era o que tinham e não abriam mão.

Contaram-me que com o adventos dos ônibus (no caso microônibus) houve uma preocupação sincera de se manter o bonde ativo, sempre circulando, mesmo que fosse de maneira muito irregular (tanto nos horários quanto nas condições dos veículos). Queria se preservar a memória e os motoneiros, todos filiados a Central (antiga empresa do Estado do Rio de Janeiro, responsável pelo transporte sobre trilhos) queriam continuar trabalhando: fosse porque não tinham mais o que fazer, fosse porque naquele bonde estava a história da vida deles, o ganha pão com que criaram filhos e netos.

Assim o bonde continuou rodando sob os trilhos de Santa Teresa, agora tendo que dividir um espaço que outrora fora todo seu com ônibus e motoristas mal-educados e carros que ignoram os trilhos fincados no chão.

Há alguns anos atrás a linha foi modernizada, surgiram novos bondes graças a uma iniciativa da Associação de Moradores do bairro que resolveu sublinhar o caráter turístico do bonde. Mesmo com seu custo módico de R$ 0,60 por passageiro, os novos bondes tinham que respeitar a velha tradição dos velhos: feitos semelhantes aos antigos (salvo pelo sistema computadorizado) mantinham o estribo, os banquinhos que mudam de lugar e sua indefectível cor amarela com pequenos corações vermelhos.

Com a Copa e com a ajuda do filme "Rio" o bonde virou o novo frisson dos turistas (nacionais e internacionais) que vem visitar o Rio de Janeiro. Quem mora em Santa Teresa e sempre tomou o bonde na Estação Carioca aos poucos vai sentindo a pressão de morar num ponto turístico e ousar ainda usar o bonde como "meio de transporte local"... os próprios turistas os agridem reclamando dos "costumes" criados em décadas de existência do bonde e convivência entre moradores de Santa Teresa. Até mesmo os motoneiros sentiram as diferenças: reclamações de todo o tipo, gente querendo ensiná-los a conduzir, reclamações sobre a demora dos veículos (que a princípio não tinham um horário regular mesmo), etc.

Dois duros golpes foram desferidos sobre o bonde recentemente. O primeiro foi o fatídico acidente de um turista europeu que, tentando fazer a moda dos brasileiros que há décadas viajam nos estribos do bonde, perdeu o equilíbrio em cima dos Arcos da Lapa e de lá despencou causando um grande trauma à população e aos motoneiros que foram responsabilizados pelo incidente. O segundo golpe foi mais recente: o bonde desgoverna-se e tomba na curva de descida da Joaquim Murtinho, próximo ao acesso da Portinha. Entre muitos feridos, pessoas que saíram ilesas, mas 5 vidas se perderam, dentre elas do querido condutor Nelson, homem sorridente, condutor atencioso e simpático, querido por moradores e turistas.

O fato é que o Rio de Janeiro está mudando rapidamente e tanto a sociedade quanto, e principalmente, os governantes não estão se dando conta disso. O incidente do bondinho, que já acontecera outrora, no passado, dentre muitos outros que ocorreram, foram negligenciados até que este meio de transporte transformou-se em possível "mina de ouro" para algum "empreendedor" que irá fazer um consórcio (a exemplo do que aconteceu com o Metrô e a Flumitrens) e que irá cobrar preços absurdos, impor suas regras ético-comerciais e então o velho e desprezado bondinho que sobreviveu às custas da dedicação de homens como o falecido condutor Nelson, se tornará tal qual o trenzinho do Corcovado: um atração exclusivamente turística e cara! Quanto aos condutores, os velhos condutores que defenderam e mantiveram ativo o bondinho, serão sumariamente dispensados, esquecidos, humilhados e difamados como maus profissionais.

É assim que a história acontece no Rio de Janeiro e, por que não dizer, no Brasil.

"Se o bonde parar ele sai dos trilhos da História".

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